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Editorial

 

Para discutir a crise estrutural da educação e a persistência conjuntural das contrarreformas em curso, frequentemente acentua-se a prática de coações externas ao tempo próprio do ensino, da pesquisa e da extensão, isso quando não se colocam em circulação ideias prontas sobre a sociedade da “informação” ou do “conhecimento”, povoada de indivíduos mais ou menos acostados em zonas de conforto, com o seu devido pé atrás para se adaptarem ao meio ambiente competitivo das metas quantitativas, das exigências de permanente disponibilidade, de flexibilidade atarefada e respectivos ranqueamentos. Mais raramente é que se tornam visíveis e pensáveis as cenas concretas nas quais essa violência se manifesta. Pergunta-se, por via de consequência: afora as justificativas de cunho ideológico, tamanha violência seria historicamente necessária? E se a resposta for sim: tão historicamente necessária e implacável quanto cotidianamente excessiva e injustificável?

Este número da Revista Campo Aberto não responde a estas questões, não, ao menos, imediatamente. Sob as mesmas linhas de fogo que a viram nascer, em maio de 2017, e depois, em novembro do mesmo ano, tomando corpo e colocando em pauta a fala dos revoltosos de 1968, tratamos de reunir questionamentos sobre o lugar social da escola no Brasil, buscamos aumentar a legibilidade teórica e crítica de nossa época. Por isso, assim como nos pareceu oportuna a republicação do ensaio de Bento Prado Jr., “A educação depois de 1968, ou cem anos de ilusão”, assim também pôde parecer incômodo, em tempos mais recentes, o desvelamento de processos educativos sob a égide da “institucionalidade” capitalista e os teologemas neoliberais que seguem contracenando, por exemplo, com o inseparável autoritarismo, que muito alarde faz da suposta “ausência de alternativas”.

Em contrapartida, se antes abríamos passagem a Pier Paolo Pasolini, para que desenvolvesse a questão sobre Herbert Marcuse sob a figura de um tipo “adulador”, desta vez passamos a palavra a um estudioso de Marcuse: à luz do “projeto utópico-concreto” do pensador alemão, Sílvio Carneiro examina o conturbado cenário político e educacional de nossos dias, lança luz sobre os modelos da “nova gestão pública”, sobre o movimento desencadeado pelos secundaristas, sobre os riscos atuais da especialização precoce. O professor de filosofia da UFABC propõe que, a ultrapassar-se o documento vazio da Base Nacional Curricular, siga-se adiante para o reconhecimento de outro conjunto curricular.

Denilson Soares Cordeiro, por seu turno, pratica um estilo de indagação sobre a condição universitária. Ao glosar o mote da ausência de “vida social” dos estudantes, o professor de filosofia da Unifesp se volta para a interrogação de pressupostos civilizatórios do autoconhecimento e se abre, ao mesmo tempo, para o que há de imponderável – e desejável – nas experiências críticas e emancipatórias. De Buenos Aires nos chega o pensamento de Patrício McCabe, texto nascido no calor de debates plenários sobre a educação argentina: situada a exposição em camadas distintas, ora opondo governo liberal e opositores estatistas, ora dando ouvidos a núcleos de ativistas que procuram organizar a produção de conhecimento com base em comissões e assembleias, a apreciação do debate certamente permitirá, ao leitor brasileiro, arriscar uma comparação entre os temas e problemas aventados em torno da experiência dos “cursinhos populares”, por aqui, e, por lá, daquilo que os portenhos denominam “bachilleratos”.

Também de Buenos Aires nos chega a voz de Jorges Luis Borges. Na fina e bem resolvida tradução de Denilson Soares Cordeiro, imperativos se tornam o exercício da inteligência e o da justiça, porque se trata de meditar sobre a trajetória de um francês hispanista, Paul Groussac cujo estranho destino – histórico e mundial – se apresenta no estilo de uma escrita, que, como Cervantes, “nunca encontrou a poesia no verso”, indo no entanto encontrá-la, muitas vezes, “no cambiante curso da prosa”.

Prosa da história e prosa do mundo se entrelaçam na figura – à primeira vista discreta e todavia controversa, repleta de meandros – de Georg Wilhelm Fridrich Hegel. Se a vida desse filósofo tem desmentido a impressão de seus primeiros biógrafos, é porque, de um lado, o acesso às fontes primárias parecem confirmar o que se dizia do “Aristóteles moderno” (tal como o antigo, “nasceu, escreveu e morreu”); de outro lado, porém, as aventuras dessa dialética de vida inteira podem recolocar, por antonomásia, a questão de saber afinal “quem é Hegel?”. Um antegosto de resposta se encontra no prefácio em que Terry Pinkard apresenta sua biografia do filósofo alemão, tradução feita por Douglas Rodrigues Barros.

Com Guilherme de Souza Meirelles, este número da Campo Aberto também dialoga com o que diz o nosso primeiro editorial: “do Oriente ao Ocidente a extrema direita triunfa sob a suspeita milenar e alucinatória frente ao Outro negativo, agora encarnado na figura do forçado exílio imigrante”. No artigo intitulado “A face mais brutal da opressão e da marginalização”, Guilherme reflete, com um grão de sal, nas relações entre conceitos como os de marginalização (Iris Young), refugiados apátridas (Hannah Arendt) e representantes da vida nua (Agamben), especialmente atento à tessitura da filosofia política, às injunções da temporalidade histórica e às especificidades de ordens político-jurídicas.

Cuidamos de não dispensar, por fim, os “feixes de luz sobre as sombras da história”. A quatro mãos, Lucas Bertolo e Sílvio Rosa Filho assinam uma tradução para Le dormeur du val, de Arhtur Rimbaud. O soneto vem acompanhado pela versão francesa de poema originalmente publicado em Libertinagem, “Belo Belo”, um Manuel Bandeira estudado quando “a aurora se apaga”, por Lucas Bertolo.

 

v.1, n.3 2017 / Maio a Outubro 

ISSN 2526-818X

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