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Editorial

 

Estamos atrasados nessa edição. O ponto fundamental que nos conduz aqui é o fato de estarmos inteiramente imersos num tempo de expectativas globais decrescentes. Tempo no qual as saídas apontam, aparentemente, para uma (nova) forma transitória do jogo político. Não só aqui entre nós a democracia de facto transita por crises. O fato de que uma coisa malograda se efetua de dois em dois anos – que tenhamos de cheirar as entranhas do espetáculo democrático cada vez mais reduzido ao mero verniz eleitoral com candidatos escolhidos pela “justiça” – deu-nos o atraso com relação ao tempo normativo das publicações acadêmicas. Suportamos normalmente o mau tempo, a enfermidade do espírito, a fadiga, para rememorar o ponto final desse espetáculo..
Rio de Janeiro. Numa noite de final de verão, numa das avenidas mais movimentadas do Brasil, tiros acertavam uma mulher negra. Com o silêncio do eco seco da bala, a arma ainda quente era recolocada na cintura do algoz; a cabeça da negra deu uma leve inclinação, adormecendo para sempre sobre os ombros; estilhaços do vidro descansavam inertes no colo sem pulsação; o coração já não recebia mais nada; o sangue, vermelho-negro, gotejava lentamente na calça; abaixo, encolhida, com as mãos cobrindo a cabeça, uma única sobrevivente em estado de excitação nervosa, em choque, ofegava, buscando entender o que havia se passado.
E o que se passara?
Uma linha tênue fora cruzada pelo Estado necropolítico. Um recado havia sido dado; morria não só uma preta, mas uma preta socialista escolhida por outras pretas para ser a voz representativa no espetáculo da democracia. O sinal era claro e havia outros sinais por vir: se a morte chegava a uma liderança reconhecida internacionalmente, agora poderia chegar a qualquer um que ousasse cruzar a linha.
Todo esse horror acrescentou maior vigor e responsabilidade a esse número que tem como proposta principal investigar as condições de possibilidade para o “tornar-se negro”. Que nos perdoem “a descoberta” de que até agora todo o espetáculo democrático não resultou em menos assassinatos dos que foram nadificados pela raiz escravocrata. A situação é hoje pior que a de sempre; a leve mudança de grau na institucionalização da morte pelo Estado resulta na morte de centenas de jovens nas periferias. Sempre se matou, é verdade, mas se ocultava; agora, para cada morte, uma condecoração na farda policial. Mudança de grau trágica!
Seja como for, a nova edição da Revista Campo Aberto é uma tentativa de compreender qual o motivo de nossa insensibilidade social, de nossa profunda apatia e da reprodução da violência em nome da ordem. Assim, abrindo nosso dossiê, temos o ensaio de Douglas Rodrigues Barros, A invenção do negro, que desloca a questão do tornar-se negro da sociologia para a filosofia e contribui assim para olharmos com paciência, a paciência do conceito, para a constituição da racialidade como dispositivo de dominação, exploração e controle.
Na sequência, a comunicação importante e um testemunho vivo da violência institucional contra os condenados da terra. Trata-se do artigo de Paulo Henrique Fernandes Silveira, A contraviolência em Fanon e Florestan, que por meio de dois grandes nomes do pensamento contemporâneo pensa as articulações de uma contraviolência à violência imposta pelo aparato repressor necropolítico.
Findado o dossiê, um poema de Tereza Du’Zai, Pernas Abertas, afasta-nos de qualquer repouso catártico e repõe nos trilhos uma crítica que não deve esmorecer ou tirar férias.
O ensaio Notas sobre Verdade tropical de João Augusto Oliveira Pace é uma “Contribuição para uma reavaliação crítica do tropicalismo”. O texto reúne apontamentos sobre a história do movimento tropicalista, tendo em vista sua revisão crítica. O principal objeto ao qual se volta a análise são as “memórias reflexivas” de Caetano Veloso, bem como algumas de suas canções. A partir de um levantamento dos principais traços estilísticos de sua prosa, procura-se relacioná-los aos pressupostos da perspectiva tropicalista, especialmente no que toca a sua relação de adesão ao mercado e ao universo da mercadoria, celebrados enquanto pontas de lança da libertação contemporânea – o que não deixa de acusar uma percepção objetiva das novas formas do capitalismo que se vem desdobrando nos últimos cinquenta anos.
Em Modos de sobrevivência em tempos de crise, Bárbara Buril trabalha três caminhos ou formas de lidar com derrotas e esfarelamentos afins. Como num percurso formador, (1) o que esquece de si mesmo, no “processo de assimilação”, ilustrado pela autora com os registros da sonhos recolhidos por Clarlotte Beradt entre judeus alemães de diferentes extratos e idades, entre 1933 e o exílio em 1939, conjunto só publicado décadas depois; (2) o “sobreviver através da resignação” transfere ao outro a possibilidade de sonhar por nós, como o burro do filme AuHasard, Balthazar(1966), de Robert Bresson; (3) por fim, “sobreviver através da emanação” de pequenos focos de luz de microrresistências ultrarresilientes antifascistas, vaga-lumes a bailar nas trevas movidos pelas paixões do amor e da amizade, como no Decamerão, de Pasolini – percurso com possibilidades de liberdade que, nesses pequenos atos, mostram como viver.
Abordando o livro de Jacques Rancière, O Mestre ignorante, Rafael Santos Ferreira faz uma resenha que lança luz às principais lições para pensar a perspectiva de emancipação intelectual, assim como sublinha em que sentido essa obra pode dialogar com atualidade brasileira. Lembrando a reforma educacional em curso, o texto chama à leitura principalmente aqueles que se interessam pelo tema da formação intelectual e cultural de indivíduos e sociedade. “O que se poderia aprender, afinal, com um mestre ignorante?” é a pergunta que instiga a se conhecer o método peculiar de Joseph Jacotot, um mestre francês da passagem do século XVIII para o XIX que busca retirar a sua inteligência para que seus pupilos se entreguem à própria elaboração.”
Finalmente encerramos esse número com uma sequência de poesias de Bruno Caciani Dias que entre outros tiros poéticos nos traz o “Manifesto”, o sensível “Supernova” e até um soneto muito bem malcriado para abordar nossa “República das letras”.

 

v.1, n.4 2019 / Janeiro a Junho

ISSN 2526-818X

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