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O estranho destino de Paul Groussac

Maio 8, 2018 - Uncategorized
O estranho destino de Paul Groussac

por Jorge Luís Borges

Carlyle(3) afirma que a história universal é um texto que devemos ler e escrever continuamente, e no qual também somos escritos. Essas últimas palavras, que ninguém pode ouvir sem algum terror, sugerem que não há outra coisa na Terra que não seja um signo ou uma letra da criptografia de Deus. Cada pedra, cada formiga, cada árvore e cada homem deve cumprir uma missão que ignora e que tem seu lugar na trama. Assim o entenderam Swedenborg(4) e Leon Bloy(5). Examinaremos à luz dessa estranha hipótese o estranho destino de Paul Groussac, que talvez tardou a aceitá-lo.

Em certo diálogo com Alfonso de Laferrère(6), que de algum modo foi discípulo dele, equiparou-se a um pintor que não podia usar a mão direita. Nessa metáfora, creio, está a chave que buscamos. Paul Groussac foi um grande argentino (os demagogos ainda não conseguiram desvalorizar essa bela palavra); um humanista com seu muito latim e algum grego; um devoto de Shakespeare e de Lucrécio; um historiador imparcial para quem os próceres eram infalíveis homens de carne e osso e não respeitados mitos incômodos ou meras estátuas de bronze; um hispanista que professou, como outros franceses, o amor não correspondido pela Espanha; um crítico dotado de quase infinita curiosidade e do hábito da análise; um viajante conhecedor do passado de cada uma das terras que visitou; uma inteligência irônica e desvelada, tingida de amargura; um civilizador, como Sarmiento(7).

Não foi o que queria ter sido: um grande escritor da língua francesa, à maneira de Renan e de Taine. Desterrado da própria pátria, que sempre o ignorou, e de sua amada língua natal, teve que condescender a um idioma que dominou com rigorosa arte, mas que não chegou a amar. Como Cervantes, nunca encontrou a poesia no verso, mas muitas vezes no cambiante curso da prosa. Dito estas linhas e recordo ao acaso a evocação de “uma vida na caravela”(8), o melancólico relato da última visita a Alphonse Daudet(9), que não se cumpriu, o ensaio vernáculo que dedicou a Calandria(10), esse astuto e improvisador, e a crônica épica da travessia do deserto pelos mórmons, a quem impulsionava uma fé ilusória. Lucidamente, aprofundou-se na psicologia, ainda não maculada por Freud, e nada custou a ele refutar a apressada tese de Lombroso(11) sobre os estigmas do gênio.

Todos os livros de Groussac são de hedônica leitura, mas sua obra capital não é nenhum deles, sequer o conjunto, é a incomum e delicada lição que oferece seu estilo. Os instrumentos de Groussac foram a razão e a graça, os anos e o desterro. Sua morte física completa hoje meio século; eu sei que ele está ao meu lado, aconselhando-me, eu, que não me atrevi a conhecê-lo. De sua sombra, Paul Groussac nos obriga a ser inteligentes e justos. 

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[ZAGO, Marinque. Francia en la Argentina. Buenos Aires: ediciones SRL, 1995, p. 84]

 

Notas:

(1) Paul-François Groussac (Toulouse, França, 1848; Buenos Aires, Argentina, 1929) foi historiador, escritor, ensaísta e bibliotecário. Aos dezessete anos obteve a permissão do pai para realizar uma grande viagem e foi assim que chegou em 1865 a Buenos Aires e jamais retornou. Foi diretor da Biblioteca Nacional da República Argentina entre 1885 e 1929. Recomendo a esclarecedora pesquisa da profa. dra. Paula Bruno, publicada em “Las derivas de Paul Groussac como articulador cultural. Entre exposiciones internacionales, celebraciones y eventos públicos, 1882-1911”. Parte do dossiê: “Panamericanismo, hispanoamericanismo y nacionalismo en los festejos identitarios de América Latina, 1880´-1920´. Performances y encrucijadas de diplomáticos e intelectuales”, coordinado por Pablo Ortemberg, en Anuario IEHS 32, 2017, pp. 111-134.

(2) Texto publicado em 11 de novembro de 1979, no jornal La Prensa, no cinquentenário da morte de Paul-François Groussac.

(3) Thomas Carlyle (Ecclefechan, 1795; Londres, 1881) foi escritor, historiador, ensaísta e professor. Borges talvez se refira aqui a uma de duas mais célebres obras historiográficas de Carlyle, A revolução francesa: uma história, de 1837, ou a Passado e presente, de 1843.

(4) Emanuel Swedenborg (Estocolmo, 1688; Londres, 1772) foi cientista, músico, poliglota, filósofo, teólogo e poeta.

(5) Léon Bloy (Notre-Dame-de-Sanilhac, 1846; Bour-la-Reine, 1917) foi escritor e ensaísta.

(6) Alfonso de Laferrère (Buenos Aires, 1893-1978) foi ministro, escritor e advogado e membro do governo do presidente militar Pedro Eugenio Aramburu.

(7) Domingos Faustino Sarmiento (San Juan, Argentina, 1811; Assunção, Paraguai, 1888) foi presidente da Argentina (1868-1874), escritor, periodista e professor. Considerado um dos grandes escritores da língua castelhana, ficou também famoso pelo empenho, enquanto presidente, pela educação pública e pelo desenvolvimento cultural e científico da Argentina. Dentre suas obras, a mais famosa é Facundo, publicada em 1845, sobre a vida do caudilho argentino Juan Facundo Quiroga.

(8) Ensaio biográfico de autoria de Paul Groussac sobre Calandria, entrerriano, cujo nome era Servando Cardoso. Escreveu Groussac: “tinha o nome e sobrenome como qualquer filho de vizinho – Servando Cardoso – mas ninguém o conheceu senão pelo apodo de guerra que o ilustrou, durante os três ou quatro anos de duelo incessante que manteve com a polícia de Entre Rios: viveu e morreu sendo Calandria.”

(9) Alphonse Daudet (Nîmes, 1840; Paris, 1897) foi escritor e dramaturgo.

(10) Cesare Lombroso (Verona, 1838; Turim, 1909) foi médico psiquiatra, cientista, antropólogo e criminologista. Uma das teses mais famosas das teorias positivo-darwinistas que desenvolveu preconizava que a condição de qualquer criminoso tem uma forte determinação de base biológico-hereditária. Dentre as decorrências de tais formulações, surgiram fundamentos pretensamente científicos para justificar as penas capitais.

(11) O capítulo da obra de Paul Groussac ao qual Borges faz referência se chama originalmente “La vida de la carabela” e pertence a Mendoza y Garay. Las dos fundaciones de Buenos Aires 1536-1580, publicado em 1916, em Buenos Aires, por Jesús Menéndez. Outros autores também se referem à “vida en carabela”, o que talvez se justifique menos pelo fato de evocarem o título do capítulo do que o conteúdo dele.

* Pesquisa, tradução e notas de Denilson Cordeiro, professor de Filosofia na Unifesp.

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