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Também Marcuse um adulador?

novembro 6, 2017 - Uncategorized
Também Marcuse um adulador?

por Pier Paolo Pasolini

[trad. Felipe Catalani]

Sei a partir de uma entrevista do “Paese Sera” que Marcuse teria definido os jovens estudantes como “os verdadeiros heróis do nosso tempo” [a palavra heróisé usada em sentido positivo, e não, por exemplo, como poderia ser usada a propósito de Hitler ou Molotov]. Então também Marcuse é um adulador? Ele provavelmente queria dizer “protagonistas”, que são heróis em acepção suspensa. Eu, no entanto, diria antes “antagonistas”, pois os verdadeiros protagonistas são, ainda, os velhos e os jovens que estão do lado dos velhos [ou seja, protagonista é a maioria] [1][2].

Além disso, é preciso especificar que, se é justo distinguir o problema dos jovens do Ocidente do problema dos jovens no Oriente, todavia me parece absolutamente necessário distinguir ainda o problema dos jovens em países de cultura também marxista e o problema dos jovens em países desprovidos de cultura marxista.

Marcuse de fato fala de “heróis” [digamos “antagonistas”], referindo-se particularmente à América e à Alemanha Ocidental: dois países desprovidos de tradição cultural marxista. E aqui sua função antagonista pode ser qualificada, de modo suficientemente justo, de “heroica”, em sentido positivo. Muito menos em países como a França e a Itália [hoje em dia o próprio Papa assimilou em suas encíclicas a tradição cultural marxista].

É a própria postura e a ação política dos jovens na França e na Itália que mostra o fundo “adulatório” da frase do Marcuse “entrevistado” e a imprecisão.

De fato, os estudantes franceses e italianos, colocando em crise a cultura marxista tradicional [com razão], ao invés de reconstruí-la, progredindo, a refutam simplesmente, regredindo. Regredindo sob quais posições? Sob posições ressurgimentais[3] [risorgimentali]. A analogia entre os motes constitucionais de 1848 e os motes reformistas de 1968 é impressionante. E o que isto significa? Significa que a burguesia toma posição nas barricadas contra si mesma, que os “filhinhos do papai” se revoltam contra os “papais”, continuando uma tradição na qual o verdadeiro protagonista da história é a burguesia. Em suma, os estudantes são uma miríade de pragmáticos e enérgicos McLuhan, que fundamentalmente colocam seu mundo burguês em crise para reificá-lo.

Acrescento que sua indiferença pela Resistência demonstra que a Resistência não foi [como erroneamente se crê] um último episódio do Risorgimento: participaram dela de fato os operários e camponeses. Ela foi, portanto, mesmo que parcial e confusamente, revolucionária.

Ora, a meta dos estudantes não é mais a Revolução, mas sim a Guerra Civil. Mas repito, a Guerra Civil é uma guerra santa que a burguesia combate contra si mesma, porque, como diz o velho Lukács, ela “não pode existir sem revolucionar continuamente os meios de produção, as relações de produção, e portanto todas as relações sociais”[4].

Logo, se são heróis, os estudantes são heróis de uma Guerra Civil, cujos primeiros episódios talvez já estejam sendo combatidos, e que terminarão perdendo: dado que também uma vitória deles não significaria outra coisa senão uma inteligente e rápida série de reformas [as Guerras Civis, mesmo que vencidas pelos “nossos”, nunca tiveram outros resultados]. De todo modo, é preciso então que seja dito bem claramente: adeus Revolução. A história futura é uma história burguesa, graças a seus bravos e heroicos estudantes[5].

 

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Referências

[1] In “Nuovi Argomenti”, n.s., 10, abril-junho 1968. Republicado em: Pier Paolo Pasolini, “Anche Marcuse adulatore?” in Saggi sulla politica e sulla società [editado por Walter Siti e Silvia De Laude]. Milão: Arnoldo Mondadori, 1999, p. 156-158 [N. do T.].

[2] Esta nota é de pretexto. Examino o Marcuse… manipulado pela entrevista, não o verdadeiro.

[3] Referência ao Risorgimento, período revolucionário da história italiana no século XIX que desencadeou o processo de unificação [N. do T.].

[4] Isso na verdade é dito no “Manifesto do Partido Comunista” de Marx e Engels. [N. do T.]

[5] Enquanto escrevia esta nota, ainda não havia saído a estúpida e pré-histórica nota da “Pravda” contra Marcuse.

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