Menu

Schwarz Poeta: uma apresentação

novembro 6, 2017 - Uncategorized
Schwarz Poeta: uma apresentação

apresentação de César Marins

 

A obra poética de Roberto Schwarz destaca-se pelo caráter de antessala da obra crítica, na qual ensaia diversos experimentos que mais tarde serão colocados em prática em seus ensaios. Dividida em prosa poética e poema piada, encontramos um poeta em constante diálogo com seus pares da geração “mimeógrafo”, responsáveis pela recuperação do gesto provocador do modernismo na segunda metade do século XX. Em seu primeiro livro, Pássaro na gaveta, de 1959, com 21 anos, Roberto já mostrava interesse pelas escolhas teóricas que fundamentam o modernismo brasileiro, como se pode ler no poema sem título, “nu dos pés a cabeça/ mas conservando ao pulso um relógio”. A partir da metade da década de 1960, entra em contato com os poetas Cacaso e Francisco Alvim, e passa então a integrar o chamado grupo Frenesi, nomeado de acordo com a coleção de mesmo nome. Em seu segundo e até agora último livro de poemas, Corações veteranos, de 1974, encontramos um poeta que, apesar de angustiado com o exílio e a situação do Brasil, ainda preserva o registro da provocação e militância, caso de “Passeata”: “PAU NO IMPERIALISMO/ ABAIXO O CU DO PAPA”. Outra vertente poética observada no livro é a temática subjetiva, como “Bicho Enjaulado”, que convive, além disso, com o recurso constante a um ideal de sexualidade livre e com uma prosa poética experimental, muitas vezes hermética, como em “Na cadeira”: “Uma virgem desnatada raspava os pés no chão, como se andasse, embora estivesse assentada, tesa, numa cadeira que sempre ficou e ficará no mesmo lugar, indiferente a quem se acomode nela, goste de mãos ou goste de patas, prefira mãos mas suporte patas”.

Após ser absorvido pelos estudos sobre Machado de Assis, a produção poética de Schwarz diminuiu. O último poema de que temos notícia é “Mão no pau”, que levantou uma pequena polêmica moralista ao ser publicado no Folhetim da Folha de S.P. em 1985. No entanto, essa ausência não pode tornar-se razão para se diminuir a relevância de sua poesia, pois, lida de maneira atenta, sobretudo a partir de 1970 e levando em conta os poemas dispersos, ainda não devidamente mapeados e organizados, observa-se uma poesia rica, originada pelo contato vivo com a experiência de seu tempo, como é possível concluir pela leitura dos poemas que seguem. A conexão da obra poética com a originalidade do ensaio crítico de Roberto Schwarz ainda exige um estudo pormenorizado, que analise o movimento criativo de um crítico que mescla experimentação formal e temática na construção de um edifício conceitual próprio.

 

Meu caro[1]

 

Digo o que penso, mas não penso que o senhor deva fazer o que penso e digo, nem digo para que faça, pois se digo o que penso é para não dizer nada que não penso, e não para que faça o que digo como penso. Penso e digo que deve fazer o que penso e digo que não deve fazer. Fazendo o que digo que não deve, fará devidamente o que digo e penso indevido. Está dito o que penso do que faz, e está feito o de que digo o que penso. Embora indevidamente, somos amigos.

 

Passeio[2]

 

Os automóveis da burguesia cortam as ruas da cidade asfaltadas em seu benefício. A impaciência do motorista é um gesto de classe, a cara esportiva e a cara composta da motorista são gestos de classe. Já a fúria do motorista de praça é fratricida. Perto de 40.000 automóveis engolem as avenidas, levam para o centro a burguesia, de 80 a 100.000 imbecis passando na frente e sendo passados. Com 800 ônibus iam todos para o fogo. FILHO DA PUTA de quem buzinou. Ele e os outros.

 

Almoço no estrangeiro[3]

 

O Brasil mudou
não é mais como antes
quando tudo terminada em abraço.
Agora tem uma cicatriz.
Em qualquer encontro ou jantar
a diferença entre os que foram contra
e os que foram a favor
pode aparecer.
Em minha opinião a França
até hoje não digeriu
o terror de 93.
O Brasil não havia conhecido isto.
Antes houve o caso do Estadão.
que nunca perdoou o Getúlio.
É verdade, mas a coisa do Getúlio
foi restrita e dirigida.
Desta vez foi mais longe.
Agora para ser brasileiro
é preciso assumir inclusive isto.
Em certo sentido
o país ficou mais moderno.

Mão no pau[4]

 

A mão no pau (no meu).
O pau na mão (na minha).
A mão sou eu, mas não o pau?
O pau sou eu, mas não a mão?
Soou a mão e o pau
mas não ao mesmo tempo.
A mão é de um estranho? Sim, e o pau não.
A mão é de uma estranha? Sim, e o pau não.
O pau é de um estranho? Sim, e a mão não.
O pau é de uma estranha? Sim, e a mão não.
Tire o pau de minha mão.
Ponha a mão no meu pau.
Uma coisa ou outra.
Os dois ao mesmo tempo.
Afinal quem manda aqui?
Ou quem é quem afinal?
Você quer e não consegue

harmonia. A pau no mão da estranho mim?
O mão na pau do estranha mim.

Idem para o clitóris e a dedo.

 

 

 

[1] Corações veteranos. Rio de Janeiro: Frenesi, 1974.

[2] Corações veteranos. Rio de Janeiro: Frenesi, 1974.

[3] Almanaque, nº 7. São Paulo: Brasiliense, 1978.

[4] Folhetim, in Folha de S.P., 1.dez.1985.

 

baixe o artigo para ler depois

Deixe um comentário

avatar
  Subscribe  
Notify of