Menu

Apresentação do segundo número

novembro 6, 2017 - Uncategorized
Apresentação do segundo número

*

“As ruas amanheceram cinzas pela fumaça, nos quarteirões distantes ainda era possível ouvir crepitar de carros pegando fogo e vidraças quebrando. Nos jornais corria-se de um lado para o outro com intuito de não deixar escapar os detalhes. A democracia tinha ido longe demais, estampava um conservador jornal americano. Nós lançávamos manifestos atrás de manifestos e deixamos o centro para ir conversar com operários, não havia dificuldade na compreensão do que queríamos – todos queriam uma revolução social – no entanto, não sabíamos como atingi-la. Os fatos que desencaminhamos tornaram-se maiores do que éramos, pior para nós que estaríamos presos nos limites da contestação que só pode ser exercida para chamar atenção do pai”.

 

**

“Kojève, que era inigualável em apreender o que importa, enterrou o maio francês com uma bela fórmula, alguns dias antes de sucumbir a uma crise cardíaca numa reunião da OCDE, ele declarou o seguinte sobre os “acontecimentos”: “Não houve morte. Não aconteceu nada”.

(TIQQUN, Isso não é um programa)

 

***

            Desde então, já são quase cinquenta anos daquele “acontecimento” que marcou profundamente as coordenadas da ação política, pedagógica e reflexiva no globo. Detratado e prestigiado, o evento surgido nas ruas parisienses em sua multiplicação nas praças do mundo ainda é uma botija de ensinamentos e dúvidas. Toda sua disposição questionadora teria sido capturada e docilizada? O movimento inteiro não teria sido vencido pelo capitalismo senão pela democracia? Ou ainda, teria sido, tal como a consciência da Bela Alma hegeliana, absorvida em seus pressupostos?

Distante desses acontecimentos vistos agora pela luneta da história, a Revista Campo Aberto lança seu segundo número com um dossiê que se não tem objetivos de dar respostas a tais questões, faz melhor; aumenta as dúvidas. Abrimos este número com um poderoso artigo de Bento Prado Junior, cedido gentilmente por Raquel de Almeida Prado e Bento Prado Neto, que compõe as coordenadas e nos ajuda a entender do ponto de vista da periferia do capitalismo quais foram os limites e as mudanças impregnadas no ar daqueles dias.

Agarrando o fio no labirinto, como não poderia deixar de ser, Bento retoma em A educação depois de 1968, ou cem anos de ilusão os problemas postos por maio de 68 à luz das grandes questões candentes do nosso solo sócio-político. Se o maio de 68 fora, entre outros motivos, uma postura de questionamento radical às estruturas claudicantes de ensino, como refletir sobre tais estruturas a partir dos trópicos?

Recolocando uma questão que deveria nos atormentar muito mais do que de fato nos atormenta, Bento expõe: “A pergunta insidiosa, que começou a ser formulada, das mais diversas perspectivas, depois de 1968 é, se não nos equivocamos, a seguinte: nós que herdamos, de maneira torta e através de múltiplas mediações (principalmente a da filosofia das luzes), a crença na educação como meio de redenção moral e política, poderemos mantê-la, hoje, quando a educação foi quase inteiramente identificada com escolarização?”.

Em todo caso, a fórmula, que refluiu após o maio de 68, apresenta seus limites a partir da ação não apreendida pelo discurso: se o questionamento sobre a educação burguesa era peça chave na composição do palco social em conflito, a permanência de uma visão algo ingênua com os dispositivos institucionais e seu afastamento do chão econômico e político terminará num ocaso ao não se questionar a estrutura da escola ou o seu lugar social, tornando-se uma rebaixada disputa ideológica – com tudo de péssimo que este termo esvaziado pelo marxismo vulgar carrega.

Se os ecos do passado intrigam as consciências no presente, é interessante notar como ocupações recentes em escolas públicas no país, agora já no processo de terceirização, colocaram essas mesmas questões. E se a questão se coloca ante as desilusões com os sistemas educativos e a escola como projeção de democratização do pensamento, novamente outro texto, equidistante das preocupações de Bento Prado Jr., retomará o desvelamento dos processos educativos, sob égide da institucionalidade capitalista, operada pelas pedradas dadas naquele Maio.

É o caso, por exemplo do artigo de Larissa Drigo Agostinho intitulado Quem sai às ruas? Das estruturas em Lacan, uma crítica deleuzo-guattariana. Sem querer reduzir a ampla discussão proposta pela autora, de fato, vemos na abordagem digerida por Lacan aquele condão imerso no ciclo infernal do qual a demanda por reconhecimento abstrato nada mais produz do que a busca por um “Mestre” como recompensa pela denúncia da condição de explorados.

Noutros termos, é como se a radicalidade de maio de 68 fosse abortada quando aqueles jovens revolucionários não conseguiram produzir o rompimento com o circuito interno as formas institucionais vinculadas ao aparelho político-econômico operado pelo Estado. Para além disso, entretanto, o artigo de Larissa toca em pontos polêmicos do que concebe como “lacano-marxismo”; colocando em questão a mediação existente entre o desejo e o campo social por meio da crítica de Deleuze e Guatarri, a autora demonstra que o desejo emerge diretamente do campo social e a fórmula proposta por Lacan nada mais seria do que a transposição do processo de abstração realizado pela ideologia para o plano de constituição do sujeito.

Com algumas traduções de a(u)tores conhecidos, tentamos jogar um feixe de luz sobre as sombras da história que anuviaram aqueles eventos. É o caso por exemplo da crítica demolidora de Pier Paolo Pasolini as posições de Marcuse em sua defesa dos estudantes que encontra uma mesma toada na tradução de Felipe Catalani e Paula Alves intitulada Três textos de intervenção de Adorno. Além de uma crítica contundente a ação irrefletida esta tradução acaba com a ideia de um filósofo da torre de marfim impetrada a Adorno.

Igualmente, ainda sobre aqueles eventos Fernando Vidal nos brinda com sua tradução de Sartre, seja breve no qual o assunto mais quente eram os rumos do movimento maoísta, que estourara na França em maio de 1968 e àquela altura já estava combalido. Alysson Oliveira tece importante crítica ao resenhar o filme do italiano Bernardo Bertolucci em Nós o aceitamos como um de nós e destacar que o diretor está mais interessando na revolução pessoal de cada um do que o movimento da história de forma mais ampla.

Mudando o tom sem desafiná-lo, Cesar Marins em Schwarz poeta tece comentários sobre a poética de Roberto Schwarz ao apresentar seus poemas escritos entre as décadas de 70 e 80. Enquanto, Vinicius Marques Pastorelli traduziu e comentou Os Fragmentos-Anacreonte de Hanns Eisler, um fluxo contínuo de trabalho que o músico teve com Brecht pautado não raro pela alusão direta ao contexto imediato (Furcht und Elend des Dritten Reiches); Fernando Vidal nos entrega os fragmentos de Hipnos de René Char, um conjunto de aforismos vivos e candentes.

Dois textos que por caminhos diferentes apresentam o mesmo cenário são os de Priscila Figueiredo e Alberto Sartorelli, ambos por vias distintas se debruçam sobre a ebulição de discursos e práticas conservadoras de extrema direita. Em Torre de marfim acossada e escola sem partido, a autora demonstra como o desrespeito pela pesquisa em Humanidades, e de todo modo, o desprezo nutrido pela teologia neoliberal no que se refere a educação e cultura se coaduna ao sintagma “escola sem partido” desenvolvendo o ódio terrorista tanto ao conhecimento como à política, tanto à teoria como à prática (caso não seja a prática fascista). Já em O velho e o novo: análise psicológica do conservadorismo no Brasil contemporâneo, Sartorelli apresenta-nos a insurgência de discursos e práticas que pareciam encerradas à luz da personalidade autoritária de Adorno.

Por fim, refletir sobre esse recente passado só poderia vicejar algo digno de nota se essa reflexão redefinisse as coordenadas do tempo presente. A cada época a aparição dos marginalizados se redefine em função da configuração dos antagonismos sociais. Do lado oposto da ponte estão aqueles hostis as formas revolucionárias de teoria e prática.

O outrora proletariado não pode ser abreviado pela sua posição no interior da indústria, quer dizer, não pode ser reduzido a classe operária. Talvez, aquele substantivo nem mesmo esteja circundado pela sua ocupação no interior do aparelho de produção e reprodução social e sim pelo estado de ânimo que se combina com a privação e pela revolta interna contra a sociedade que fundamenta as desigualdades e que o coloca as margens. Às margens do Brasil talvez é onde está sua verdade. Trazer tais discussões fora o objeto dessa edição.

OS EDITORES

Deixe um comentário

avatar
  Subscribe  
Notify of