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A Esquerda, o Mundo e suas Aporias

agosto 21, 2017 - Ordem do dia
A Esquerda, o Mundo e suas Aporias

Reflexões a partir de Caminhos da esquerda: elementos para uma reconstrução, de Ruy Fausto ***.

Amaro Fleck (UFLA)

 

Cada vez mais, os teóricos da esquerda estão se especializando em criticar o campo ao qual pertencem. Isto parece ser garantia de sucesso: em tal empreitada sempre se recebe a luz dos holofotes. Enquanto a “crítica da crítica” torna-se mais apurada, a própria crítica é vista como obsoleta. Ao fim, da penitência resulta a adesão. A grande virtude do livro de Ruy Fausto, Caminhos de esquerda: Elementos para uma reconstrução (São Paulo: Companhia das Letras, 2017), é escapar de tal destino. Para ele, o amargo remédio do conformismo não resolve os problemas (Fausto adota o termo oriundo da biologia, muito em voga: patologias) de que padece a esquerda. E o que ele propõe é o fortalecimento de uma esquerda independente, “democrática, anticapitalista, antipopulista e com consciência ecológica” (p. 118), uma esquerda liberta dos fantasmas passados que ainda a assustam, capaz de sugerir soluções para os problemas atuais.

A proposta é sensata, para dizer o mínimo. Justamente por isto cabe apontar àquilo que em seu desenvolvimento está aquém do satisfatório. Para começar, o próprio projeto do livro é ambíguo. O que se pretende aí? Fornecer os elementos para uma reconstrução das razões e fundamentos da esquerda mundial, de seu programa e projeto? (Será que ainda temos tempo para isto?). Ou escrever um manifesto para uma reorganização partidária da esquerda nacional, um apelo para a criação de um partido que reúna os quadros não corrompidos do PT com a ala moderna do PSOL? Projetos tão distintos carecem de estratégias diferentes. Fausto, contudo, evita escolher um dos dois. O resultado é um livro que abusa de adjetivos, rotulações, opinião e pressa.

Cabe analisar isto mais de perto. Para tanto, começo por resumir a argumentação do livro, não sem já apontar para aquilo que mais me interessa ou, pelo contrário, que mais considero problemático. A seguir, faço duas críticas. Em primeiro lugar, argumento contra certo idealismo que está presente, sobretudo, na crítica feita ao “populismo” do PT. Em segundo, defendo que uma reflexão sobre os caminhos a serem tomados pela esquerda não pode prescindir de uma análise mais pormenorizada das três graves crises que estão recém emergindo, tanto na escala nacional quanto na internacional, e das quais provavelmente não sairemos, ao menos em curto e médio prazo: a crise econômica, a climática, e a relativa à automação do trabalho (e consequente criação de um contingente de pessoas supérfluas à reprodução material da sociedade). Ainda que aquilo que podemos fazer quanto a estas três crises seja demasiado pouco, e demasiado tarde, o sucesso da esquerda depende, em grande medida, desta quixotesca tarefa.

 

Uma quase resenha

A estrutura do livro de Ruy Fausto é bastante clara. Ele parte de uma análise de três patologias da esquerda – o totalitarismo, o adesismo e o populismo (cap. 1). Argumenta que a direita se aproveitou do fracasso da esquerda em combater estas patologias para lançar sua ofensiva, visível tanto no plano nacional quanto no internacional, e que urge analisar os discursos atuais da direita (cap. 2). A partir disso, faz um diagnóstico da situação da esquerda mundial e uma história da esquerda no Brasil (cap. 3), para então se lançar na parte construtiva: a defesa de um programa e de um projeto para a esquerda renovada (cap. 4), e, por fim, a exposição das razões e dos fundamentos, em termos de valores, antropologia e filosofia da história, de uma nova (outra) nova esquerda. Fausto elabora tudo isto em 120 páginas, e acrescenta outras 60 para rebater as críticas de um “economista liberal”, a saber: Samuel Pessôa (ao artigo da revista Piauí que apresentava o argumento central da obra aqui comentada). Não há como deixar de notar a discrepância entre a ambição do projeto e a brevidade da execução. Justamente por isso o livro parece às vezes com um programa, ou mesmo primeiro esboço, do que deveria ser feito. Mas como a pressa é dele, não nossa, dediquemos um pouco mais de atenção ao que é dito em cada um destes capítulos.

O livro começa com a tentativa de Fausto de “dissociar o projeto da esquerda da maioria dos projetos e políticas que no último século se apresentaram como representativos dela, na forma de práticas de Estado ou de partido, ou enquanto corpo de ideias” (p. 15). Com isso ele quer dizer, mais precisamente, que é preciso recusar claramente três alternativas, a saber: 1) a desenvolvida pelas variantes de leninismo, stalisnismo, trotskismo e castrismo que ele chama de “totalitária” (vigentes nos regimes socialistas de caserna, hoje enterrados ou em agonia, mas que persistem em certa esquerda arcaica presente em pequenos partidos de esquerda, em correntes do PT, assim como em movimentos sociais e estudantis, e que tem sido renovada na teoria por Žižek e Badiou); 2) O “reformismo adesista”, presente na social democracia europeia – cujo caso paradigmático é Tony Blair – e no “cardosismo” brasileiro, por meio do qual teóricos e políticos se afastaram do campo esquerdista, no começo propondo uma “terceira via” e depois simplesmente aceitando a capitulação; e, 3) O populismo, cujos traços principais, para Fausto, “parecem ser uma liderança carismática autoritária, uma política que une, pelo menos na aparência, interesses de classes mais ou menos antagônicas, e certo laxismo na administração pública” (p. 29). Fausto faz certo malabarismo para conseguir enquadrar os governos petistas em tal categoria (ao afirmar que convém falar de populismo mesmo na ausência de um destes traços: no caso, o elemento autoritário. Mais para frente, ele chamará o PT de “semipopulista” [p. 137]). Volto a este ponto em minha primeira crítica.

Em “A Direita no ataque” Fausto se propõe a fazer “a crítica do discurso dos ideólogos da direita” (p. 12). Ao longo de quinze páginas ele tenta dar conta de analisar o pensamento do astrólogo de Virgínia, do declamador de poetas inconfidentes, e de dois colegas, professores de filosofia, um especialista em Hegel e outro em Pascal. A tarefa de analisar criticamente o pensamento da direita atual é não só necessária como urgente. Mas aqui cabe refletir sobre o objetivo e a estratégia. Para fazer a velha e boa crítica imanente é necessário encontrar textos que sejam, ao mesmo tempo, interessantes, bem argumentados e problemáticos. O princípio básico é: para bons debates, bons interlocutores. Cabe enfrentar o pensamento de um Hayek, um Nozick, um Oakeshott ou um Scruton assim (a miséria do pensamento da direita nacional precisaria, ela mesma, ser investigada. No entanto, cabe reconhecer que a discussão com Pessôa, ao final do livro, é muito superior ao deste capítulo – e em parte por méritos do interlocutor direitista). Mas qual debate é possível com um delirante que responsabiliza o epicurismo pelas atrocidades do Gulag? (Fausto comenta a passagem na página 192). Reconhecendo que a qualidade opinativa dos outros três não difere qualitativamente tanto da do primeiro (no caso dos professores, bem entendido, em suas obras de divulgação e colunas de jornal), há de se questionar: não seria o caso de investigar justamente os motivos de discursos assim fazerem tanto sucesso (comercial, ao menos)? Ou de questionar sobre como se dá a recepção destes textos e do que seus leitores encontram neles? Fausto não faz nada disto. Limita-se a apresentar os quatro ideólogos e, nos melhores momentos, fazer alguma observação sobre o estilo de argumentação deles. Com isso ele é incapaz de convencer os leitores deles de quão ruim é o que leem, e não acrescenta quase nada para seus leitores, os quais, provavelmente, se interessariam pelas respostas às questões recém-formuladas.

O terceiro capítulo reúne reflexões dispersas de Fausto sobre o estado atual da esquerda no mundo; acerca da trajetória das ideias totalitárias ou populistas no Brasil, ou, mais precisamente, na esquerda brasileira; e, por fim, narra uma crônica do episódio do impedimento de Dilma Rousseff da presidência da república e de como a esquerda discutiu o episódio. O que vincula todos estes assuntos é a ideia de que há novas organizações na esquerda independente mundial que tiveram sucesso, ao menos temporário. Fausto exemplifica três casos: o Syriza grego, o Podemos espanhol, e a candidatura de Bernie Sanders às prévias do partido democrata americano. A tese implícita parece ser a de que tais experiências poderiam iluminar o debate e oferecer modelos alternativos para a almejada reconstrução da esquerda nacional. Concordo com a proposição de Fausto se com isto ele quer dizer que há espaço para proposições mais radicais no campo da esquerda. De fato, propostas mais ousadas obtiveram boas performances eleitorais, não apenas nos EUA, na Espanha e na Grécia, mas também na França (Fausto não menciona por não simpatizar em nada com Jean-Luc Mélenchon) e no Reino Unido. Cautela, no entanto, nunca é demais. Convém lembrar que performances surpreendentes nem sempre ganham eleições. Só o Syriza pôde converter suas propostas em políticas públicas. O resultado foi um fracasso retumbante, ainda ao se levar em conta a situação excepcionalmente ruim e a pouca margem de manobra da qual dispunham os dirigentes gregos. Em tempos como os nossos cabe a questão: uma civilização é capaz de resistir a quantos governos de figuras como Trump, Berlusconi e Putin?

O mais importante na tarefa de reconstruir a esquerda é definir um novo programa e um projeto para ele ter alguma chance de ser efetivado. Fausto faz isto no quarto capítulo, a meu ver o mais importante (e também o mais bem-sucedido) de seu livro. O projeto consiste em “mobilizar e esclarecer (ajudar a esclarecer) o setor mais avançado da classe média, em parte intelectual” (p. 82), um grupo social que “condena, e com razão, as encartadas da esquerda oficial, em termos de lisura administrativa, mas [que] também não se identifica propriamente com a direita” (idem), e que pode “influenciar camponeses e empregados pobres, ou operários” (idem). Além disso, é preciso valorizar o papel dos não organizados, notando que eles formaram uma parte expressiva do contingente humano nas últimas mobilizações no país (sem, com isso, idealizar tais mobilizações). Trato de tal estratégia em minha primeira crítica. Quanto ao programa, Fausto sugere que se inicie por uma reforma tributária, capaz de atenuar as imensas disparidades de renda e de riqueza que assolam o Brasil. A reforma consistiria em reduzir os impostos sobre consumo e aumentar aqueles sobre renda, herança, fortuna e lucros (além de combater a sonegação fiscal). O autor também enfatiza a necessidade de melhorar o ensino primário e secundário; de fazer uma reforma agrária e urbana “sem nenhum tipo de violência contra particulares” (p. 90); de propor uma agenda ecológica e de manter a democracia representativa, aprimorando ela por meio de limitações do acúmulo de cargos (tanto no espaço quanto no tempo). Tudo isto seriam meios para a “sobrevivência ou a (re)implantação de um Estado de bem-estar, Estado que está ameaçado por todo lado, se já não foi desmontado” (p. 85), isto em curto prazo, pois em longo a meta seria estabelecer “uma sociedade democrática por excelência, com uma organização econômica fundada em cooperativas, subsistindo a propriedade privada, o Estado e alguns capitais não-hegemônicos” (idem). Em outro momento, Fausto afirma que “o objetivo da política de esquerda deve ser a neutralização do capital” (p. 41), isto é, limitar seu poder tanto intensiva quanto extensivamente, ainda que sem “eliminar toda propriedade privada dos meios de produção” (idem). Simples assim.

No derradeiro capítulo Fausto explica que é preciso abandonar o projeto do comunismo, uma vez que ele “contém germes totalitários” (p. 95). Dito isto, ele defende que é preciso fazer uma “nova crítica da economia política”, a qual deve ter por foco os problemas de legitimação da “posse do capital, e também da riqueza que vem do capital”, pois estes “não provém do trabalho do capitalista” (p. 103), deixando assim de se ocupar com a questão da mais-valia. A isto ele acrescenta uma antropologia que não é nem pessimista e nem otimista, e uma filosofia da história desconfiada, ciente de que se as formas sociais mudam, “elas não mudam necessariamente para melhor” (p. 107), e que, se a história caminha e tem uma direção, esta “é mais a da barbárie do que a do progresso” (p. 109). Mas deixemos tais elucubrações para tempos mais calmos e passemos agora às críticas.

 

Esquerdismo, classe média e sofrimento

            Em certo momento, ao comentar o destino do lulismo que “entrou em parafuso” (p. 62), Fausto pergunta, talvez de forma retórica:

Mas, já que se admite que houve um lado positivo na trajetória petista, impõe-se a pergunta, a qual, implícita ou explicitamente, recebe uma resposta positiva por parte de muitos dirigentes, teóricos ou simpatizantes do PT: valeu a pena a ‘operação’, isto é, foi correto corromper deputados, desviar dinheiro público, vender cargos públicos etc. para se sustentar no poder e, assim, implementar medidas redistributivas? (p. 31)

 

Como responder a tal questão? Parece-me evidente que, na ausência de uma bola de cristal precisa o suficiente para dizer como seria o país hoje sem os quatorze anos de governos petistas, a resposta depende da perspectiva adotada. A resposta de Fausto é típica de uma classe média bem pensante: “O impasse a que o PT conduziu a esquerda brasileira não paga o preço de parte dos resultados obtidos pela sua política redistributiva” (p. 31). Cabe, no entanto, perguntar: será que pensam assim aqueles cujas refeições diárias dependem de tais políticas? Ou quem pôde e pode cursar o ensino superior graças ao aumento das vagas nas universidades públicas, à adoção das cotas, aos sistemas de financiamento no ensino privado? Quem depende do sistema público de saúde? (A lista dos que respondem sim também inclui, é claro, os grandes latifundiários que passaram a exportar muito mais commodities; o capitalista que se aproveitou da expansão do mercado interno; o rentista que em momento algum viu sua fonte de riqueza em perigo). Muitas seriam também as perspectivas que optariam pela negativa, desde aqueles que não puderam mais sustentar um padrão de vida cuja condição necessária era uma remuneração baixíssima dos serviços (isto é, parcelas não exatamente abastadas que podiam ter empregada(s) doméstica(s) e outros privilégios impossíveis para pessoas na mesma situação em países desenvolvidos), até as não poucas vítimas do modelo desenvolvimentista brasileiro implementado neste período.

É preciso notar que, não importa qual seja a resposta e a perspectiva adotada, a questão da corrupção é superficial, ou, em outras palavras, ela é usada antes para legitimar a posição adotada do que exatamente para motivá-la. Não quero, com isso, dizer que a corrupção não seja um problema. É evidente que este é um dos males que nos arruína e que devemos encontrar meios efetivos de combatê-la (o que significa reconhecer seu lugar estrutural e institucional, em vez de discuti-la no âmbito cultural do jeitinho ou no pessoal do caráter). Mas basta mencionar que os milhões que saíram às ruas para derrubar Dilma Rousseff não encontraram motivação suficiente para repetir os atos contra Michel Temer, implicado em denúncias bem mais graves e documentadas, para perceber que há aí motivos ocultos. Eles não o apoiam, criticam-no, mas isto não os mobiliza para nada. Por quê? Em vez de buscar a resposta para tal questão, limito-me a fazer duas observações. A primeira é que, em um projeto de reconstrução da esquerda tal como pretendido por Fausto, os governos petistas deveriam ser criticados por conta de suas políticas, e não por conta de deslizes morais de seus dirigentes. A segunda é que pode ser uma péssima escolha se fiar em uma classe média supostamente progressista. A esquerda produziu grande parte dos melhores teóricos sociais do mundo contemporâneo. Ela sabe que há uma lacuna entre os motivos e as justificativas, e que, portanto, grupos sociais aparentemente progressistas podem se revelar conservadores. A periferia sempre “pagou o pato” no Brasil, e continua pagando. Há ali uma eclosão de demandas básicas, desde o acesso a saneamento até o fim do extermínio da juventude negra, passando pelo empoderamento das mulheres e por melhorias urbanas. Dialogar com quem ali reside e buscar meios de melhorar a vida deles é a condição primeira para qualquer sucesso de políticas de esquerda. Em tempos de expectativas rebaixadas como estes que por aí vão não devemos subestimar a importância da atenuação dos sofrimentos socialmente causados.

 

As aporias da esquerda e as aporias do mundo

É preciso investigar melhor o fracasso, se é que se pode falar nestes termos, dos governos petistas em transformar de forma mais significativa o Brasil, assim como os casos de insucesso da socialdemocracia europeia. O discurso moralizante da corrupção tornou-se a forma mais fácil de escapar de tal necessidade. A questão é entender por que partidos de esquerda, comprometidos com ideais igualitários, contribuíram para deixar o mundo ainda mais desigual (mesmo no caso brasileiro o que houve foi antes uma estabilização da desigualdade em patamares altíssimos em uma época que a desigualdade avançava em passos rápidos alhures do que propriamente uma redução dela). Não foi porque se venderam, nem por terem feito alianças para poder governar com grupos aos quais supostamente deveriam se opor. Não tenho resposta para tal questão. Mas gostaria de levantar uma hipótese.

A maior patologia da esquerda, hoje, não está nos resíduos de dogmatismo das viúvas de Lênin (que certamente são graves, mas hoje felizmente irrelevantes em termos de impacto – ao menos se desconsiderarmos o microambiente das principais faculdades de humanidades). Tampouco no adesismo de quem sequer pode ser considerado (e se considera) como pertencente a ela. O fantasma do “populismo” deve sem dúvida ser execrado, mas para tanto é preciso refletir no que significa tal rótulo quando se abusa tanto dele. A maior patologia da esquerda está em sua denegação. Ela se nega a reconhecer quão fundo é o buraco em que estamos. Ela se nega a reconhecer que as crises que enfrentamos estão transformando o mundo em uma escala ainda inimaginável, e que seu sucesso ou fracasso consiste em propor estratégias para lidar com tais transformações. Foi nisso que a esquerda fracassou ao longo das últimas décadas. Quais crises?

Em primeiro lugar, o mundo já está um grau mais quente. Dificilmente será o único. Para o impacto das mudanças climáticas não ser da dimensão catastrófica que se desenha é preciso que planos audaciosos sejam colocados em ação. Por enquanto não passam de intenções. Os impactos sequer foram sentidos. Ainda que exista uma diferença de padrão cronológico, isto é, que o tempo geológico opere em escalas muito mais amplas que o tempo político ordinário, o aumento do nível do mar e outras consequências imprevisíveis logo serão percebidos. A crise climática exige acordos globais que demoraram décadas para chegar a algum lugar e, uma vez ali, estão entrando em rápido processo de deterioração. Ela exige um tipo de racionalidade que nunca operou em um sistema capitalista (em que se supõe que a anarquia das ações individuais produz, como que por milagre, alguma ordem geral). Basta um idiota no governo de algum país importante retomar a exploração do carvão ou não aceitar reduzir o uso do petróleo para tudo isto fracassar. Idiotas são as únicas coisas que se produz em abundância em épocas de crise econômica.

A crise econômica alimenta a crise climática. Ela aumenta o custo das medidas que precisariam ser tomadas, fazendo com que soluções de curto prazo (para tentar a reabilitação da economia) agravem ainda mais o cenário futuro (sobretudo em termos ambientais). Mas seus danos vão muito além. A grande “desaceleração” da economia, para não usar termos mais realistas como travamento ou estagnação, não apenas impede a integração econômica dos ainda excluídos, como gera novos contingentes de desintegrados. Ela contribui para o aumento da desigualdade em escala mundial, que por sua vez colabora ainda mais para a estagnação da economia. A crise é global, embora as desgraças que ela gera ganhem traços mais ou menos dramáticos de acordo com as configurações regionais.

A automação do trabalho e a consequente obsolescência dos empregos aumentam os danos sociais da crise econômica. A automação faz com que uma parcela cada vez maior de pessoas se torne supérflua para a reprodução material da vida social. De forma sádica, a sociedade reforça os critérios de meritocracia baseados no desempenho no trabalho em um momento no qual as máquinas assumem funções crescentes, buscando assim responsabilizar os não empregáveis por um destino que de modo algum controlam. Acreditar que o capitalismo dará conta de criar um novo filão (como foi o ramo dos serviços no século XX) é puro wishful thinking. A crise da sociedade do trabalho decorre do trabalho não ser mais socialmente necessário, mas sem por isso deixar de ser o único meio pelo qual se consegue o necessário para a subsistência.

Não pretendi fazer estas reflexões com “a pena da galhofa e a tinta da melancolia”. Tenho lá minhas dúvidas sobre o projeto de uma reconstrução da esquerda, mas de modo algum questiono o fato de que é preciso fazer a (auto)crítica de seus descaminhos. Ainda que a situação atual, tanto nacional quanto internacional, deixe qualquer um desesperançado, e que pareça mais provável o êxito daqueles que elegem bodes expiatórios a serem sacrificados em rituais insanos (imigrantes, no caso dos populistas autoritários da direita internacional; comunistas, esquerdistas, feministas e defensores das minorias no caso dos ideólogos nativos; políticos, para o senso comum brasileiro; banqueiros e rentistas, para boa parte da esquerda), não resta à esquerda renovada outra opção do que o realismo de sugerir políticas de redução de danos enquanto não surgirem oportunidades melhores. Sejam estes tempos de colapso ou de declínio, a esquerda que souber usar a fortuna a seu favor pode ter algum sucesso maior em médio ou longo prazo. Isto significa simplesmente apostar na continuidade e no agravamento das crises. Repito: a proposta de Fausto é sensata. Os problemas ali contidos extravasam o plano da obra. A armadilha em que a esquerda se meteu não é dela. Nela se encontra também tudo o que resta de nossa civilização.

 

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