Menu

Digamos o óbvio: o movimento identitário é protofascista

junho 26, 2017 - Ordem do dia
Digamos o óbvio: o movimento identitário é protofascista

por Greg Matos

 

Bons dias!***

            A lógica da peste se baseia não no desaparecimento senão na sua potencialização ao efetuar o ciclo de controle e assimilação nos organismos vivos onde os vírus se instalam. O corpo ganha resistência, cria mecanismos de autodefesa e aquilo que o destruía passa a fortalecê-lo. O problema, porém, é que esse desdobramento do corpo efetua também um desdobrar do vírus que precisa encontrar um ambiente propício para oferecer novos perigos ao organismo quando produz algo estranho ao corpo. É esse algo estranho, que aparece como novidade, mas que de fato é somente um desdobramento da doença anterior, aquilo que se espalha como peste.

            Também ressurgiu potencializado a peste protofascista já em finais do século XX. O fascismo “foi destruído militarmente”, alerta João Bernardo, “sem estar política e ideologicamente derrotado[1]”. O ambiente era propício: esfacelamento do assim chamado “socialismo real”, reino ideológico do neoliberalismo e certeza de que o fim da história havia chegado. Ambiente favorável à perpetuação da nova religião que numa visão nostálgica instauraria todo lixo reacionário ligado a busca de ancestralidade, típica das religiões de nova era.

O identitarismo é uma peste que se espalha infectando a vida política e desestruturando qualquer tentativa de criação de um corpo político antagônico ao modo de vida capitalista[2]. É isso, independente das cores que veste para perpetuar um falso-romantismo que busca às raízes inexistentes de uma sociabilidade nostálgica. É retrógrado sob todos os aspectos. Uma imbecilidade que como o fascismo de outrora busca revolucionar o próprio modus operandi capitalista sem alterá-lo.

Nenhuma outra peste encontrou ambiente mais favorável tendo em vista que o Neoliberalismo se baseia na lógica do individualismo autocentrado e na ideologia do eu-empresa. Uma construção em que caiba todos desde que não se toquem e cuja tolerância se dá a partir da construção de muros nas fronteiras dos países, na fronteira da vizinhança cuja identidade próxima seja aquela que vista as mesmas roupas, tenha o mesmo cabelo, o mesmo tom de pele e escolha da sexualidade. É a centrifugação da vida social em que cada um lida com a identidade que o toca, como se a vida social tivesse agora passado para a lógica do condomínio.

Que tempos são estes que temos que defender o óbvio? Perguntou o poeta alemão lá atrás. Hoje mais de setenta anos depois dessa pergunta o Identitäre Bewegung (Movimento Identitário) marcha sobre Berlim na mira da Antifa e com a proteção dos policiais que prendem os comunistas e os anarquistas que visam barrar a marcha fascista. Uma nova Völkisch que desencadeou o Nazismo, se ergue na envergonhada Alemanha que desde o final da Segunda Guerra manteve o fascismo como o “Um recalcado”. Já dizia Freud, o reprimido sempre volta para interromper a ópera.

Boas noites!

 

Notas e referências

*** Esse texto compõe a sessão ordem do dia, artigos de leitores e membros da revista sobre análises candentes e do frigir dos ovos. 

[1] João Bernado in: Labirintos do fascismo: na encruzilhada da ordem e da revolta, 2015, p. 16

[2] Se a teoria queer se baseia num questionamento das epistemes e da ontologia a partir do sujeito autocentrado do capital – embora não se diga isso para não afetar os ouvidos liberais de Judith Butler – no Brasil, as ideias fora do lugar continuam imperantes e produzindo seitas que para entrar é preciso antes de tudo fazer parte da episteme. Essencializa-se o homem que agora – para alguns religiosos – é também um estuprador em potencial. Essencializa-se o negro como portador de características imperantes no interior da própria seita. E essencializa-se, sobretudo, o capital como única forma de sociabilidade em que todas as essencialidades devem estar debaixo de seu guarda-chuva. E essa essencialização é a abertura de caminho para o fascismo. Afinal não nos esqueçamos do mais conhecido etnocêntrico da história: Adolf Hitler e sua mitologia ariana!

Resposta do leitor:

– Ah! Mas não se compara o pan-africanismo com o pan-eslavismo!

– Não mesmo! – Responde o autor – eles estão separados por questões tradicionais e culturais, nem precisam coabitar juntos. Ou seja, um desastre organizado pelo modo de produção e reprodução social, aguardando o estado de guerra.

 

IMAGEM: Cleiton Custódio Ferreira

Deixe um comentário

avatar
  Subscribe  
Notify of