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A esquerda que abraça a lógica do massacre e o fim do “inteiramente outro”

junho 14, 2017 - Ordem do dia
A esquerda que abraça a lógica do massacre e o fim do “inteiramente outro”

Créditos da imagem: Cleiton Custódio Ferreira

 

Por Gilberto Tedeia[i]

Como impedir que, com o uso do termo “povo”, se reduza pessoas num território à condição de objetos esbulháveis, empilháveis, descartáveis e matáveis?

A resposta a essa pergunta exige identificar, enfrentar, superar e destruir os interesses que saem ganhando com a reprodução desse modelo de dominação na relação entre pessoas.

Spoiler: pouco adianta deixar intacto o modelo de relação entre pessoas e coisas tornado rolo compressor que há 600 anos atropela e massacra o que encontre pela frente, que o digam os ameríndios, africanos, árabes, asiânicos, mulheres et al.

1.

A política, quando não anulada pela maioria de brucutus assumidamente fascistas que nos cala e fim, é varrida pelo tsunami do identitarismo, dos CAs à roda de amigos – muitos são os âmbitos de sociabilidades alternativas ao imposto, ao dominante, ao patologicamente assumido como normal -todos acabaram por se afundar numa luta suicida.

Assistimos ao massacre do que outrora foi a esquerda, o diferente, a turma do “não”, e junto com isso, lá se foi o “espírito de contradição organizado”.

2.

A infantilóide adoração de particularidades configura um narcisismo político que se deleita em queimar o que não seja espelho.

Essa militância é aguerrida e sabe o que quer.

Não deixa pedra sobre pedra e se comporta tal como os vizinhos na antiga Iugoslávia após o colapso desse país: passam a persegui-los como se não houvesse nem amanhã nem ontem na Prosa do Mundo.

Sua dinâmica política é movida pela desqualificação que estigmatiza e persegue o que não se encaixe em sua “narrativa”, e o faz com a mesma fúria denuncista dos macartistas.

A redução de contradições do real à sua euforia legiferante impõe um discurso que se autoinstitui, ao mesmo tempo em que o nega, como o real, a concretude, o materiamente válido, o relevante.

A única dimensão de fato protegida nesse tsunami é própria fúria, reduzida a fim em si que os assola.

Suas agressivas investidas ante tudo o mais impõe-se de modo binário mediante condenações, perseguições e etiquetas.

Os delírios disso que se passa por militância são afirmados como única dimensão de todas as lutas, o lado único do cubo de suas particularidades.

3.

O ativismo identitário reduz a complexidade das dinâmicas de reprodução da dominação, controle e extermínio de populações, territórios, pessoas e coisas a mera questão de gosto, opiniões, pontos de vista particulares.

E esse é o fim da política, a trajar o melhor figurino neoliberal: tudo se passa como se o indivíduo fosse o único responsável por tudo o que vive, fala, aparece, apresenta.

4.

A visão narcísica do identitarismo na política impressiona pela apropriação de um modo de pensar inclusivo e universalizante, emancipatório e antissistêmico.

Não é a primeira vez que os antagonistas das lutas emancipatórias se apropriam de ideias antissistêmicas para negar qualquer mudança radical.

A primeira manifestação desse procedimento se deu na social-democracia alemã, e resultou na morte de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, entre dezenas de outros.

Outro momento-chave dessa inversão foi sua apropriação pelos “comunistas liberais”, como Zizek nomeia os donos de macroempresas que fazem gracinhas com farelos enquanto acumulam e extorquem aqueles milhões de (não)usuários em continentes inteiros que depois serão alvos de suas ONGs.

Destaca-se ainda o passo dado pelos “players” que comandam o jogo do que se passa por “democracias ocidentais”, tendo por meta o desmanche de conquistas seculares do mundo de trabalho.

5.

Estamos todos em meio a um cabo de guerra, e perdendo. O que nos remete ao jogo de contradições e forças e (des)equilíbrios pré-1789.

O duro, dói mesmo, é encontrar os que, nesse período todo, se instituíram como identidades em processo de reconhecimento a interverterem suas lutas em massacre do “inteiramente outro” tendo por meta falarem sozinhos e pronto.

Sobrou a lógica do massacre, espraiada por todos os lados.

A direita sempre dela se valeu, salvo naquele período conhecido por “anos dourados do capitalismo” e isso apenas nos países centrais e somente para a parte “incluída” de suas populações.

6.

Voltamos ao Zeitgeist da Guerra dos Cem Anos.

A lógica do extermínio foi agasalhada com euforia pelo que um dia foi a “esquerda não oficial”.

Porque a avaliação de que, com sua partidarização, as lutas sociais resvalaram em restrições, uma vez isso identificado como limite dessas lutas, ao invés de se avançar rumo à superação desses limites, o identitarismo retroage em práticas de truculência, perseguição, extermínio e silenciamento, que em nada se diferencia do praticado à larga pelos detentores do poder e da riqueza.

Voltemos a Brecht, na epopéia da “Mãe Coragem e seus filhos”, e vejamos o que resta aos esfolados despolitizados enquanto seus líderes e os que entendem suas causas os esfolam em seus nomes.

 

[i] Professor de Filosofia na UnB, palmeirense. Esse texto reúne posts publicados no blog do autor, http://praticaradical.blogspot.com.br/

*** Esse texto faz parte da Ordem do dia.

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